Subtilezas

 

Nós somos seres de subtilezas.
Uma nuance nalguma coisa que não gostamos e deixamos logo de querer usá-la.

Quando olha para o seu guarda-fatos, por exemplo, e vê alguma peça que adia usar repetidamente – “Um dia vou usar mas hoje não me apetece!” –  deve perguntar-se a si mesmo porque é a evita. Qual o detalhe que o incomoda? Ou o que é que acha desconfortável?
Pode ser a tonalidade da peça, o desbotado no colarinho ou o punho demasiado largo.

Este tipo de pertences negligenciados existem um pouco por toda a casa: uma caneta que não lhe agrada, um creme de que não gosta da textura ou um cobertor que arranha na pele. Todos estes são detalhes que pode questionar no seu quotidiano.
Se pausar e for honesto, percebe que há algo que não assenta no seu estilo, personalidade ou no seu modo de vida.

 

 

Assim, em vez de simplesmente manter a peça e continuar a ignorá-la, enfrente-a!
“Porque é que não a uso?”.
Se for algo que se arranje, pegue nela e ponha-a pronta a ser consertada.
É preciso ir ao sapateiro? Coloque-a à porta e no dia seguinte quando sair, leve-a.
Essa camisola tem um ar demasiado gasto? Pouse-a no braço do sofá e nessa noite, quando estiver a ver um filme, ataque-a com a máquina de tirar borbotos.

E, se simplesmente achar que não há solução, ou que o trabalho/custo de a recuperar não vale o esforço, aceite tal facto e não pense que “amanhã” talvez a use…
Porque quando não gostamos de algo hoje, dificilmente vamos passar a gostar amanhã.
Dê-a ou recicle-a.

Num episódio pessoal, lembro-me de uma carteira que esteve em pausa durante demasiado tempo. Um dia, quando peguei nela e mais uma vez pensei “Hmmm, hoje não”, percebi que era a alça que estava demasiado comprida. Ficava-me mal pelo comprimento que tinha!
Então decidi: ou arranjo ou dou.
Optar por repará-la foi a melhor coisa. Hoje em dia é muito usada e escuso de procurar mais carteiras pretas porque a que tenho é perfeita!

Unitasker?

 

Os objectos foram criados com um objectivo principal: optimizar e simplificar. Optimizar os nosso gestos e o nosso bem estar. Simplificar o dia-a-dia e as nossas tarefas.

Mas, nesta busca de simplificar tudo, as empresas procuram inventar o melhor produto para aquela função em especial. Assim, desdobram os objectos de forma a ter peças específicas para cada propósito (Unitasker, em inglês).
A uma função – por mais simples e pequena que seja – corresponde um utensílio, que promete tornar tudo mais simples, rápido e melhor.

Coincidindo com um crescimento económico, a partir de meados do séc. XX houve também um crescimento do número invenções, criando assim novas necessidades. Iogurteiras, fatiadores de ovos, descaroçadores de maçãs, colheres para fazer esferas de melão… A lista é infindável, desde utilidades para cozinha, a miudezas para o nosso dia-a-dia, levando-nos a pensar que vamos poupar tempo precioso, ou que vão fazer dum simples gesto, um ritual especial.

 

 

É muito natural que nos sintamos atraídos por estas promessas e esperanças, e acreditamos que obter aquele produto em especial vai ser bom para nós.
Acontece, que destas “utilidades” que temos, só uma pequena percentagem nos é realmente útil e nos proporciona prazer.
Se só usa o fatiador de ovos para as sandes de praia naqueles 5 dias de férias, será que ter aquela peça a ocupar espaço o ano todo é assim tão vantajoso? E quanto ao massajador facial que não usa porque não tem paciência e prefere ir a um spa quando sente mesmo necessidade de um “mimo”?

Um objecto monotarefa ou demasiado específico não é necessariamente uma má escolha. Claro que se adora pipocas e é o seu snack preferido, uma máquina para o efeito talvez seja o ideal.

Mas tendo isto em mente, talvez possa ter um olho mais crítico quanto à utilidade real daquilo que o rodeia.

Portanto, pense duas vezes se aquela peça vai ser efectivamente uma mais-valia para si. Ou serão apenas os efeitos do marketing a fazê-lo acreditar que precisa mesmo desse gadget?

Redireccionar

Temos falado em libertar espaços e organizá-los.
Assim, à medida que vamos decidindo o que libertar no nosso ambiente, é importante ter em mente para onde vão as coisas a mais.
E é tão relevante que chega a influenciar a nossa decisão de ficar ou não com alguma coisa. Isto é, se soubermos que vai ter o melhor destino, somos mais permeáveis à ideia de deixar ir.

Assim, a melhor opção é ir separando logo à partida para onde vão as coisas que não queremos na nossa casa.

A seguir a nós, qual a próxima paragem?
Para cada tipo de items, diferentes direcções!

Roupa

Em boas condições:

· Para dar directamente a quem necessita: CERCI, Cruz Vermelha, APAV, Entreajuda ou qualquer outra associação que queira apoiar.
· Para dar e ser revendido por lojas solidárias: Humana, Remar, Cáritas…
· Para vender diretamente as suas peças: lojas com sistema de consignação, feiras de segunda mão ou plataformas como OLX, Ebay, Vestaire Collective ou até Facebook.

Em fracas condições (se tiver dúvida, pergunte-se a si mesmo se a peça é boa o suficiente para dar a um familiar ou amigo. Se a resposta for não, talvez não esteja em bom estado para dar a outras pessoas):

H&M ou Zara , onde fazem reciclagem de têxteis – Neste momento não há muitas opções nacionais que se responsabilizem por esta secção de reciclagem, e estas lojas acabam por ser pontos que se encontram um pouco por todo o país.

Livros

· Para dar: biblioteca, escolas, universidades, lares.
· Vender: alfarrabistas, ou feiras em segunda mão. Também existem sites que permitem a venda como Fnac, Bibliofeira ou outros.
· Uma sugestão extra: numa rua movimentada – e num dia de sol – pode deixar uma caixa com os livros e assinalado “Gratuito”. Vai ser uma boa surpresa para quem lá passar.

Electrónicas (cabos, CD’s, pequenos e grandes electrodomésticos)

Em bom estado: pode vender online, dar, ou perguntar quanto lhe dão pelas peças num Cash Converter.

Em mau estado: depositar em lojas como Rádio Popular, Media Markt ou Worten. Nesta última, pode ter possibilidade de retoma e não se preocupar com o transporte de grandes electrodomésticos, uma vez que fazem a recolha em casa.

Brinquedos, livros ou roupa de criança:

· Para além das acima referidas, CPCJ (Comissão e Protecção de Crianças e Jovens), ou escolas/infantários locais.
· Livros escolares podem também ser vendidos nos sites Sítio da Troca ou Book in Loop.

Acessórios de animais:

Sejam almofadas, taças de comida ou roupa que o seu companheiro não usa, pode entrar em contacto com a associação de animais mais próxima e entregar-lhes. Normalmente também aceitam toalhas e cobertores.

Mobiliário:

Para além dos anteriores, a EMAÚS, Renascer, Betel, Reto e Remar fazem recolha ao domicílio.

Caso disponha de objectos – ou o conjunto do que decidiu libertar-se – muito grandes e pesados, pode contactar a Câmara Municipal e marcar um dia e hora para a recolha. Os responsáveis certificam-se que o que não pode ser dado vai ser reciclado.

Seja qual for a escolha, quero lembrar que a venda dos artigos requerem disponibilidade, tempo e espaço extra para os guardar enquanto não os vende.
Quando liberta a sua casa, o objetivo é libertar a sua mente também, e não ter mais tarefas a cumprir. Por isso, o ideal é “despachar o assunto” o mais rapidamente possível, levando-os para fora de casa assim que possa.

Por fim, deixo uma outra alternativa que acaba por juntar o útil ao agradável: chamar um ou outro amigo que pense estar interessado nas suas peças. Aproveita para pôr a conversa em dia e liberta o que está a mais!