O Caso dos Naperons especiais

 

A minha avó – como muitas avós – era (e é) formidável com bordados, rendas e crochés. Era um passatempo e uma arte, de onde saíam maravilhas cheias de detalhes.

Ora, ela tinha uma colecção permanente do dia-a-dia, que distribuía pela casa, ia usando e lavando, e remendando algum buraquito extra que aparecesse.
E tinha também a colecção dos “muito bons”, cuja excelência do trabalho e o tempo usado para fazer cada peça, já os elevava a um novo patamar. “Estes vão ser para a casa nova“, dizia ela.

Efectivamente mudaram uns anos depois para uma casa nova e maior.  Mas os naperons normais ainda serviam! Estavam bons e bonitos, e os outros especiais ainda não eram para já. Talvez para as festas.

 

 

 

E nisto, a avó continuava a fazer mais naperons e paninhos. Os bons eram postos a uso, os “muito bons” iam para A caixa.
Os anos foram passando, a vida aconteceu, e as peças especiais fechadas n´A caixa. O plano era que fosse para a próxima  “casa nova”, uma mudança que estavam a planear num futuro próximo.
E quando passado uns anos, foram para a casa nova, os naperons normais estavam impecáveis. Iam, claro, continuar a ser usados!

Entretanto, a minha avó já é avó, idosa.

E apesar de ter uma colecção rica de peças, há uma série delas ainda mais rica. Está fechada, e praticamente esquecida…

Para mim, este episódio gracioso e tão comum reflete mais uma vez uma forma de pensar e de (não) usufruir do que temos, que devia ser mais intencional e mais proactiva!
São estas pequenas coisas e detalhes que fazem o nosso ambiente mais especial e mais nosso, então porque não sacá-las cá para fora e desfrutar? O presente é suficientemente importante. 

 

 

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O SÍNDROME DAS NOZES DA MACADÂMIA

 

Uma das minhas primeiras visitas à China em trabalho permitiu-me ter um contacto real com os costumes e gastronomia local, através de bancas de rua com os seus grelhados, sopas feitas na hora, fruta… tanta inspiração! Fiquei maravilhada com a riqueza e abundância daquilo que nós consideramos exótico.

Dessa viagem trouxe, entre outras coisas, uma bolsa cheia de nozes da macadâmia. Ricas, amanteigadas, sabor suave e textura fantástica. Como ainda vinham na casca, até comprei um utensílio próprio para as abrir.
Cheguei a casa, toda orgulhosa com a minha iguaria rara, para comer “em ocasiões especiais”. Lá ficou na dispensa, os meses foram passando, mudei de país, as nozes vieram comigo, mudei de país outra vez, e elas sempre atrás. À espera do momento certo para as saborear.
Até que, num dia normal, igual aos outros, decidi abrir o saco. “Eu mereço uma delícia, e hoje apetecem-me estas nozes! Finalmente vou abri-las!”. Pois bem. Abri-as.
E sabiam a velho. Sabor fechado durante demasiado tempo, textura seca e paladar desconsolado!

É isto que acontece quando esperamos demasiado tempo para usar e desfrutar de algo que consideramos ser “demasiado exclusivo” para os dias normais. O tempo passa, esquecemo-nos que aquilo existe porque está tão inacessível…e o que era tão especial perde a graça e o encanto.

 

 

Já se cruzaram com algum item que por alguma razão guardam para uma ocasião especial? Um momento importante no futuro… não há data específica, mas sabem que quando chegar esse momento, vão querer usar esse item.
Ora, não esperem demasiado tempo, não vai haver um sinal secreto em como é altura ideal para usar o “trunfo”.

Abram aquela garrafa, usem esse vestido ou aquele bâton, tirem a toalha bonita da gaveta para um jantar de semana.
Aprecie o que tem de bom. De qualquer das maneiras, quando houver um evento especial, já vai saber bem por si só.

 

 

 

MENOS PLÁSTICO, MAIS LIBERDADE

Há pouco tempo uma amiga recebeu uma chamada invasiva por parte de uma empresa que tentava convencê-la a aceitar um cartão de crédito. Ao primeiro “não”, é normal que haja nova insistência, mas ao segundo e ao terceiro “não”, já podemos considerar publicidade agressiva…

É-nos constantemente oferecido um sem-fim de ofertas que parecem inofensivas, vantajosas e que só nos querem “ajudar”, prometendo melhorar o nosso dia-a-dia e simplificar experiências.
A assinatura “A” dá desconto nalguns bons hotéis e aluguer de automóveis; o contrato “B” oferece descontos em grandes marcas de roupa e acessórios; o cartão “C” dá milhas para voos sempre que o utilizar em compras e serviços…
A verdade é que vai aceitando as propostas, e vão acumulando de tal forma, que quando dá por ela, tem a carteira cheia de cartões que não usa, e se for preciso, compra mais uma carteira só para os ter.

 

 

E quando realmente precisa de alguma coisa nem se lembra que tem o tal cartão. Passaram anos e fez as suas compras, passeios e contratou os serviços que precisava, quando precisava, sem lhe ocorrer que tinha essas promoções.
Ou então, num dia qualquer, abre a gaveta para procurar algo, lá aparecem os cartões, e tem sempre o mesmo pensamento: “Ah, tinha aqui isto e nem me lembrava… deixa cá ver melhor quais são os benefícios. Qualquer dia vou usar isto”. Acontece que acaba por não os usar e a situação vai-se repetindo…

É natural que estas ofertas e oportunidades sejam aliciantes de algum modo, mas devemos parar para pensar se cabem nos nossos gostos e hábitos de vida actuais. Reveja se usufrui mesmo de todas vantagens que lhe são oferecidas, e se têm um valor prático no seu dia-a-dia. Liberte-se do que não responder a isto.

Ainda há pouco tempo decidi cancelar as contas bancárias dos países onde vivi, e no momento em que cortei os cartões, mais os cartões matrizes, mais os códigos, mais os emails de cada banco, fui-me sentindo cada vez mais leve!
Experimente, a sensação é libertadora!

E lembre-se, temos sempre o direito a dizer não, sem dar satisfações a desconhecidos.

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