casas: s, m l, xl.

 

Diversos estudos de arquitectura e antropologia concluem que durante o século XX as casas foram aumentando significativamente de tamanho, não devido a necessidade, mas por expectativas crescentes do que são condições de luxo e conforto.

É interessante saber que desde os anos 20, o tamanho médio das casas aumentou para o triplo!
Ou seja, apesar das famílias serem mais pequenas hoje em dia, as casas continuam a crescer.

A verdade é que de certa forma se estipula que “uma casa minimamente confortável” é espaçosa, mas por outro lado, quanto mais espaço existe, mais tendência há para o preencher, e quanto mais preenchido, menor o conforto e fluidez de movimento, menos tranquilidade.
Ora, quando sente que tem a casa muito apertada, procura uma maior, e por aí adiante…
Cria-se aqui um ciclo vicioso que tende a continuar.

O mais curioso é que isto se aplica em tudo! Quanto mais tempo temos para fazer um trabalho, mais nos prolongamos e tardamos em terminá-lo (de qualquer das formas ficamos até à data a aperfeiçoá-lo), quanto maior uma mala de viagem, mais coisas tentamos colocar dentro…

O mesmo se passa com as nossas casas. Ao darmos liberdade, por exemplo, a um sótão ou garagem para serem “quartos de arrumos”, mais tolerância nos damos a nós mesmos para manter lá tudo. Nem questionamos se nos devemos libertar ou não das coisas que não nos são úteis… porque há espaço! E à primeira oportunidade lá compramos mais coisas que não precisamos.

 

Estima-se que cerca de 25% das pessoas com garagens para dois carros não consigam sequer estacionar lá um dos carros… Parece incrível, mas a verdade é que as actividades do dia-a-dia se vão apoderando do nosso tempo, e se não formos intencionais no “destralhe”, as coisas ganham raízes e estacionam lá por demasiado tempo.

Defina quais os propósitos desse compartimento: Escritório? Oficina? Acessórios de desporto? Estacionar o carro? Força.
Se necessitar mesmo, assuma que tem arrumos, mas delimite um espaço para eles. E deixe livre o máximo espaço possível. Mais fácil de limpar, mais arejado, mais agradável.

 

 

O Caso dos Naperons especiais

 

A minha avó – como muitas avós – era (e é) formidável com bordados, rendas e crochés. Era um passatempo e uma arte, de onde saíam maravilhas cheias de detalhes.

Ora, ela tinha uma colecção permanente do dia-a-dia, que distribuía pela casa, ia usando e lavando, e remendando algum buraquito extra que aparecesse.
E tinha também a colecção dos “muito bons”, cuja excelência do trabalho e o tempo usado para fazer cada peça, já os elevava a um novo patamar. “Estes vão ser para a casa nova“, dizia ela.

Efectivamente mudaram uns anos depois para uma casa nova e maior.  Mas os naperons normais ainda serviam! Estavam bons e bonitos, e os outros especiais ainda não eram para já. Talvez para as festas.

 

 

 

E nisto, a avó continuava a fazer mais naperons e paninhos. Os bons eram postos a uso, os “muito bons” iam para A caixa.
Os anos foram passando, a vida aconteceu, e as peças especiais fechadas n´A caixa. O plano era que fosse para a próxima  “casa nova”, uma mudança que estavam a planear num futuro próximo.
E quando passado uns anos, foram para a casa nova, os naperons normais estavam impecáveis. Iam, claro, continuar a ser usados!

Entretanto, a minha avó já é avó, idosa.

E apesar de ter uma colecção rica de peças, há uma série delas ainda mais rica. Está fechada, e praticamente esquecida…

Para mim, este episódio gracioso e tão comum reflete mais uma vez uma forma de pensar e de (não) usufruir do que temos, que devia ser mais intencional e mais proactiva!
São estas pequenas coisas e detalhes que fazem o nosso ambiente mais especial e mais nosso, então porque não sacá-las cá para fora e desfrutar? O presente é suficientemente importante. 

 

 

Salvar

O SÍNDROME DAS NOZES DA MACADÂMIA

 

Uma das minhas primeiras visitas à China em trabalho permitiu-me ter um contacto real com os costumes e gastronomia local, através de bancas de rua com os seus grelhados, sopas feitas na hora, fruta… tanta inspiração! Fiquei maravilhada com a riqueza e abundância daquilo que nós consideramos exótico.

Dessa viagem trouxe, entre outras coisas, uma bolsa cheia de nozes da macadâmia. Ricas, amanteigadas, sabor suave e textura fantástica. Como ainda vinham na casca, até comprei um utensílio próprio para as abrir.
Cheguei a casa, toda orgulhosa com a minha iguaria rara, para comer “em ocasiões especiais”. Lá ficou na dispensa, os meses foram passando, mudei de país, as nozes vieram comigo, mudei de país outra vez, e elas sempre atrás. À espera do momento certo para as saborear.
Até que, num dia normal, igual aos outros, decidi abrir o saco. “Eu mereço uma delícia, e hoje apetecem-me estas nozes! Finalmente vou abri-las!”. Pois bem. Abri-as.
E sabiam a velho. Sabor fechado durante demasiado tempo, textura seca e paladar desconsolado!

É isto que acontece quando esperamos demasiado tempo para usar e desfrutar de algo que consideramos ser “demasiado exclusivo” para os dias normais. O tempo passa, esquecemo-nos que aquilo existe porque está tão inacessível…e o que era tão especial perde a graça e o encanto.

 

 

Já se cruzaram com algum item que por alguma razão guardam para uma ocasião especial? Um momento importante no futuro… não há data específica, mas sabem que quando chegar esse momento, vão querer usar esse item.
Ora, não esperem demasiado tempo, não vai haver um sinal secreto em como é altura ideal para usar o “trunfo”.

Abram aquela garrafa, usem esse vestido ou aquele bâton, tirem a toalha bonita da gaveta para um jantar de semana.
Aprecie o que tem de bom. De qualquer das maneiras, quando houver um evento especial, já vai saber bem por si só.