O mito dos livros

 

Sempre considerei que ter em casa uma biblioteca bem recheada era fantástico.
Prateleiras cheias de aventuras, imagens bonitas, conhecimento e obras clássicas era algo que todos deviam ter, uma colecção crescente que se ia construindo ao longo de uma vida.

“Os livros nunca são demais, quantos mais melhor!”

Sim, na nossa vida, não na estante.
Quantos mais livros lermos, melhor. Em mais histórias mergulhamos, de mais sabedoria bebemos, estimulamos a imaginação…enfim. Ler é maravilhoso.

Mas agora pergunto: dos que já leu, quais os livros que vai voltar a ler? Dos que tem em casa, quais são aqueles em que vai voltar a pegar, entrar nas profundezas das páginas e deixar-se levar, capítulo após capítulo?
Provavelmente, uma pequena percentagem. Digo por experiência própria.

Os livros servem a sua função enquanto os lemos, inspiram-nos com as palavras e levam-nos mais longe. Digerimos a informação e assim somos pessoas um bocadinho mais ricas. E pronto, é isso. O livro cumpriu o seu propósito.
Depois disso, voltam à prateleira, e voltam a ser palavras em folhas de papel coladas, uma capa que fica à espera de ser aberta outra vez. O que honestamente, muitas vezes não acontece. Há muito poucos livros que escolhemos ler outra vez, em vez de ler um novo.

E com esses, aqueles poucos volumes que lemos e relemos várias vezes ao longo do tempo… esses são os trazem verdadeiro prazer, os nos falam ao coração, e claro, que valem a pena manter.

Os outros, já sabe…!

UM DIA…

Pense nos livros que vai comprando, e imagina que os vai ler “um dia”. E guarda-os, porque “posso querer lê-los um dia”. Ora bem, esse dia provavelmente não vai chegar.
A verdade é que os livros que ainda não leu – com o potencial que têm de ser lidos alguma vez no futuro – são muito mais difíceis de descartar do que o que já leu, esses em que o potencial está cumprido. Mas reconheça: entre o momento que chegaram até si e o agora, preferiu fazer outras coisas, ler outros livros, passar o seu tempo de outra forma. E vai continuar a preferir outras actividades, e ele vai continuar ali esquecido.

Se o livro não teve uma função na sua vida até hoje (ou provavelmente a função era apenas dar-lhe um sorriso quando lhe pegou pela primeira vez), o que é que vai mudar amanhã? Não insista mais e deixe-o ir.
De qualquer das formas é muito mais interessante para si ler “aquele” livro que o prende agora, do que o outro que está ali abandonado.

 

OS GRANDES CLÁSSICOS

E os livros clássicos…Ah, esses! Achamos que são os “obrigatórios”, aqueles que têm que ser lidos, pelo menos uma vez na vida.
Grandes Esperanças, Moby Dick, A Volta ao Mundo em 80 dias, As Vinhas da Ira, Os Maias… a lista é interminável.
Já li alguns, já deixei alguns a meio, ainda não li grande parte. Há uma pequena porção desses que me emocionaram tanto, que cada vez que os vejo, inspiram-me. Há outros em que só o título me leva a mundos distantes e exóticos. São esses os que “brilham”. Os demais? Fora!

 

LIVROS DE CONHECIMENTO

Dicionários de línguas que pretendeu aprender um dia (mas continua a usar o google translate e, quando viaja, fala a língua que lhe é mais confortável); resumos de seminários em que participou; livros de curso que são tão interessantes, mas não o suficiente para lhes voltar a pegar desde que acabou os estudos; livros com técnicas incríveis de fotografia, mas que opta por ser espontâneo quando carrega no botão…
A informação que está lá fechada, de nada serve se continuar fechada.
O conhecimento escrito por si só não faz nada. É sua a decisão de o ler, de o interiorizar e fazê-lo seu.

Se não lhes dedicou tempo e foco até agora, aceite que tem outros interesses e prioridades. Aprendeu o que devia naquele momento, agora abra espaço para aprender outras coisas!

 

OS QUE TINHAM UMA FRASE INSPIRADORA

Não guarde um livro só porque tinha um par de frases inspiradoras. Retire-as ao reescrever no computador, ou faça um scan, e doe o livro.

 

 

Libertar-se dos livros que não lhe trazem valor, tem duas grandes vantagens:
1. Quando comprar o novo romance que está ansioso por ler, já vai ter espaço na prateleira
2. Acabam-se as culpas do “devia” ler, “devia” saber, etc. Tenha em sua casa só aquilo que “brilha” e lhe traz leveza, não peso.

 

Há inúmeras opções para onde dar os livros: bibliotecas, escolas, instituições de caridade, alfarrabistas ou até vendedores de feiras (pode oferecer-lhes ou pedir um preço simbólico). Assim, dá oportunidade aos seus livros de terem uma nova vida.
E de qualquer das formas, se quiser mesmo voltar a ler algum livro de que já tenha desfeito (pouco provável), sempre tem a biblioteca ou se optar por comprar, faça-o, e leia-o desta vez.

 

Seja sincero consigo mesmo.
E lembre-se:
Os livros que temos na estante não são a identidade da nossa história. A forma como nos comportamos, aquilo que sabemos e o que gostamos hoje em dia – isso é que forma a identidade da nossa história, daquilo que já gostámos e já lemos e já fomos. O seu EU hoje reflecte a sua história por si só.

 

“Para os livros, o timming é tudo. O primeiro momento em que encontramos um livro em particular é o momento certo para lê-lo.”

-Marie Kondo

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